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O dia mais longo do ano.

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Na minha infância, a Sexta-feira da Paixão era, disparado, o dia mais longo do ano. Custava uma eternidade e mais um título do Ferroviário pra terminar. É que lá em casa não se podia fazer praticamente nada nesse feriado. Era (e continua sendo) um dia pelo qual se devia ter muito respeito. Lembro que uma vez eu jogava bola e partia cara a cara com o gol (na verdade, um par de Opankas bem espaçadas uma à outra), já estava pronto pra marcar e correr para o abraço, quando meu pai aparece e diz: “Meu filho, hoje não é um dia pra se divertir, é um dia pra se guardar… Foi quando Jesus morreu”.

Então tá, morreu, né? Coisa séria. Morte. Meu pai tem razão. Lá ia o centroavante pro chuveiro mais cedo. No caso, para a antiga sala da televisão, ver algum desenho animado ou qualquer coisa com menos movimento e empolgação pra poder guardar o dia, como me havia sido recomendado. Em sinal de profundo respeito, evito colocar os pés na cadeira e deixo o volume quase inaudível. Depois de cinco minutos, meu pai aparece novamente com o mesmo texto na ponta da língua: “Meu filho, papai já falou, hoje é um dia pra se guardar”. “Mas nem TV, pai?”, “Nem TV”, respondeu.

Aí pensei: “Ah, é? Pois agora eu quero ver”. Espalhei todos os livros, cadernos e apostilas sobre a mesa da sala e desatei a estudar. Duvido que um pai vá reclamar ao ver o filho mergulhado nos estudos em pleno feriado, imaginei. E, se era pra ficar olhando para o teto, resolver alguns TDs não parecia má ideia. Pronto, lá vem ele, bora ver. Errei, e errei feio na previsão. “Meu filho, quantas vezes?! Hoje é um dia muito importante, eu já disse. Não é um dia pra estudar, é um dia para se guardar”.

Mais de vinte e cinco anos depois, estou em casa, também em plena Sexta-feira da Paixão. Ainda sem saber direito o que é pecado ou não, me espalho no sofá, desfrutando de alguns minutos bem ao estilo Homer Simpson, após uma semana que passou como se fosse uma forrageira. Mas não deu nem tempo de se espreguiçar: a Paula irrompe a sala e o silêncio: “Amor, você podia aproveitar o feriado pra montar e fixar as prateleiras no quarto dos meninos, depois fazer umas compras no supermercado e dar uma passadinha na farmácia”. Nem pensei duas vezes: “Meu amor, hoje é um dia pra se guardar…”

 

Pádua Sampaio

Delantero contrata criativos de João Pessoa e Natal

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A fim de reforçar a equipe e de ampliar o conhecimento sobre o Nordeste, a Delantero contratou os criativos Daniel Guimarães e Flávio Salzer.

Daniel veio de João Pessoa, tendo passado pelas agências Sin, Tagzag e Emicê-PE. Criou para Governo do Estado da Paraíba, KiCaldo, Correio da Paraíba e Sebrae/PB. Premiado pela Criatividade da Paraíba e Colunistas Norte e Nordeste.

Já Flávio é carioca e trabalhava em Natal. Passou por Bora e Art&C. Criou para Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Prefeitura de Natal, Universidade Potiguar e Multiplay. Premiado pelo Sinapro-RN e Colunistas Norte/Nordeste.

Os Indicômanos

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Tem um bocado por aí: gente que tem obsessão por indicar. Cleptomaníacos se satisfazem roubando, mitômanos mentindo e indicômanos, menos mal, só indicando. Dor na coluna? “Dr. Cabral. É éx-celente” (assim, com ênfase no “e”). Assessoria esportiva? “Te marco no Instagram”. Alinhamento, balanceamento e cambagem: “fale com o Lorim e diga que é meu amigo. É de confiança”.

Está cientificamente comprovado: o organismo desses indivíduos libera uma dose extra de endorfina ao ver uma sugestão atendida. Não há prazer maior no mundo do que ouvir “vi ontem aquele filme que você falou” ou “como é mesmo o nome daquele restaurante?”. Eles bem que disfarçam, mas por dentro sentem a alegria de um menino quando bate pro recreio.

Só que o reconhecimento não vem fácil. Essas pessoas têm que ficar sempre alertas. Tiram fotos de placas “aluga-se” nos postes, memorizam a esquina onde fica o rapaz que vende mesinhas e cadeiras, anotam todos os telefones de “faz-se frete” que encontram pela frente. A agenda do celular nunca tem sobrenome. É Flávio Pintor, Clóvis Mecânico, Neide Podóloga. Vai que.

Viagem então é um prato cheio. Descobrem o destino e já soltam que de Gol é direto, Azul não tem esse trecho e Latam tá mais caro. Indicam o melhor hotel e os principais pontos turísticos que você deve visitar, mesmo que nunca tenham ido: “quem vai a Barcelona não pode deixar de conhecer o Museu do Prado”. Ah, é carro? “Pega a BR, o acostamento é mais largo. Tá um tapete.”

O momento mais sublime pra essas pessoas é quando recebem ligação de curso de inglês, só pra dizer que não tem interesse e indicar mais 10 amigos. Se você já fez isso, cuidado: pode ser um sintoma da indicomania.

Eu mesmo, outro dia, me peguei tentando convencer um amigo, pai de primeira viagem, de que o carro escolhido por ele e a esposa não era o adequado. Dei umas 3 ou 4 opções e defendi como todas as forças. No final, ainda disse “é uma menina, né? Já pensaram no nome? Bianca é um nome lindo.” Desde então, estou sendo acompanhado. Caso aconteça algo parecido com você, não se preocupe, pode falar comigo. Conheço um médico excelente.

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Pádua Sampaio.

Não se orgulhe se seu filho se formar aos 21.

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Não sinta orgulho se seu filho se formar aos 21. Sério.

Com 21 anos, ninguém tem maturidade suficiente pra aproveitar as oportunidades que a vida esfrega na sua cara. Ok, “ninguém” é generalizar demais. Vou reformular. Ninguém legal tem maturidade suficiente pra aproveitar as oportunidades que a vida esfrega na sua cara. (Melhor, né?)

Vejam este exemplo. 21 anos, formado. Primeiro estágio aos 18. Com 26, 8 anos de mercado, 7 desses em agências de publicidade. 4 diferentes até aqui.

Aos 22, morou sozinho em outro estado, comandando a operação de uma agência cearense em São Luís. Aos 24 trabalhou na maior agência do Ceará. E hoje, aos 26, trabalha em uma das agências mais criativas do Norte-Nordeste.

“Ah Italo, esse cara é bem sucedido. Né não?!”

Filho, vem cá, vamo conversar. Se eu te contar as merdas e arrependimentos em cada uma dessas experiências… Neste momento um parênteses. Não vai colar se eu fizer que nem aquela galera que vai no Altas Horas e mandar a do “meu amigo mandou eu perguntar né?”. Ok então. Esse cara sou eu. (Eu sei que você leu cantando a música do Roberto Carlos)

Depois de passar por algumas dessas experiências, umas bem sucedidas, outras não, a vida passa a esfregar arrependimentos na sua cara. É a forma dela dizer “eu te dei essa oportunidade, mas tu não agarrou”. Aí você pensa: “porra, aquela era a época do intercâmbio”“merda, aquela era a grana da entrada num apartamento”“putz, se eu não tivesse batido o carro”.

É no final da faculdade que aparecem a maioria das vagas de trainees das grandes empresas. Muitas delas com salário inicial entre 3 e 4 mil reais. Mas no final da faculdade, você tá apenas preocupado em não reprovar por falta e não ter foto com ex no álbum de formatura. Triste história: provavelmente irá acontecer as duas coisas.

Com 17 anos, ninguém sabe o que vai querer fazer a vida toda. Com 17 anos, você quer no máximo saber como colocar uma camisinha sem errar. Aliás, muita gente até sabe (o que fazer a vida toda, não a parte da camisinha), mas se pega com muitas dúvidas e incertezas ao longo do caminho.

Tenho amigos e amigas, por exemplo, que adoram Publicidade e têm plena consciência de que é a única coisa que sabem fazer (sem ofensas, migos), mas beirando os 30 decidiram mudar de rumo. “Ah vou pro Marketing. Não quero mais essa vida de agência.”. Foram pro Marketing e demoraram alguns meses pra dizer “É a mesma coisa. Trabalha muito do mesmo jeito. Ganha pouco do mesmo jeito. Mas meu vale-refeição é maior.”

Nossa, Italo, quanta frustração, tu não é feliz na Publicidade? 

Eu sou muito feliz. Eu amo publicidade e respiro propaganda 24 horas por dia. Gosto do que faço, e, modéstia a parte, faço bem. É tipo mulher de malandro, sabe?! Apanha, apanha, mas tá lá, todo dia, morta de apaixonada.

Falando em mulher de malandro, uma vez eu tava no Aloha, bêbado, conversando sobre relacionamento com uma amiga, e ela me disse algo que eu jamais vou esquecer: “Italo, tu que gosta de sofrer. Cara, tu gosta de ser atendimento. E tu ainda torce pro Fortaleza.”.

Falando em Fortaleza, depois de anos como torcedor, virei atendimento da conta. Olha como são as coisas da vida.

A verdade é que eu fui uma dessas pessoas que aos 17 sabia o que queria fazer a vida toda. Aos 12, pra ser mais preciso. Mas de lá pra cá, já pensei em ser muita coisa. Já pensei em fazer Medicina, pra transar no hospital que nem o pessoal de Grey’s Anatomy. Já quis fazer Direito, pra ser foda que o Harvey Specter de Suits (se você ainda não assistiu essa série, assista, pois provavelmente é a única coisa boa que você vai levar desse texto). E já pensei até em ser representante farmacêutico. Este último só pela grana mesmo.

Aos 25, 26 anos, tem muita gente feliz, tem muita gente frustrada, tem muita gente ainda cercada de dúvidas. Porque a nossa cultura exige que a gente tome uma decisão importante demais, quando ainda não sabemos nem fritar um ovo inteiro sem fazer mexido. E essa de que a gente aprende com os erros é filosofia barata de mesa de bar. Até aprende, mas aprende com os acertos também. Se você acertou e não for doente, não tem porque fazer diferente e errar, no máximo aperfeiçoar aquilo pra fazer mais fácil e mais rápido das próximas vezes.

Portanto, não se orgulhe se seu filho se formar aos 21. Ele pode se formar aos 25 ou aos 30 e ser tão foda quanto.

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Ítalo Castro é atendimento na Delantero.