Não sinta orgulho se seu filho se formar aos 21. Sério.

Com 21 anos, ninguém tem maturidade suficiente pra aproveitar as oportunidades que a vida esfrega na sua cara. Ok, “ninguém” é generalizar demais. Vou reformular. Ninguém legal tem maturidade suficiente pra aproveitar as oportunidades que a vida esfrega na sua cara. (Melhor, né?)

Vejam este exemplo. 21 anos, formado. Primeiro estágio aos 18. Com 26, 8 anos de mercado, 7 desses em agências de publicidade. 4 diferentes até aqui.

Aos 22, morou sozinho em outro estado, comandando a operação de uma agência cearense em São Luís. Aos 24 trabalhou na maior agência do Ceará. E hoje, aos 26, trabalha em uma das agências mais criativas do Norte-Nordeste.

“Ah Italo, esse cara é bem sucedido. Né não?!”

Filho, vem cá, vamo conversar. Se eu te contar as merdas e arrependimentos em cada uma dessas experiências… Neste momento um parênteses. Não vai colar se eu fizer que nem aquela galera que vai no Altas Horas e mandar a do “meu amigo mandou eu perguntar né?”. Ok então. Esse cara sou eu. (Eu sei que você leu cantando a música do Roberto Carlos)

Depois de passar por algumas dessas experiências, umas bem sucedidas, outras não, a vida passa a esfregar arrependimentos na sua cara. É a forma dela dizer “eu te dei essa oportunidade, mas tu não agarrou”. Aí você pensa: “porra, aquela era a época do intercâmbio”“merda, aquela era a grana da entrada num apartamento”“putz, se eu não tivesse batido o carro”.

É no final da faculdade que aparecem a maioria das vagas de trainees das grandes empresas. Muitas delas com salário inicial entre 3 e 4 mil reais. Mas no final da faculdade, você tá apenas preocupado em não reprovar por falta e não ter foto com ex no álbum de formatura. Triste história: provavelmente irá acontecer as duas coisas.

Com 17 anos, ninguém sabe o que vai querer fazer a vida toda. Com 17 anos, você quer no máximo saber como colocar uma camisinha sem errar. Aliás, muita gente até sabe (o que fazer a vida toda, não a parte da camisinha), mas se pega com muitas dúvidas e incertezas ao longo do caminho.

Tenho amigos e amigas, por exemplo, que adoram Publicidade e têm plena consciência de que é a única coisa que sabem fazer (sem ofensas, migos), mas beirando os 30 decidiram mudar de rumo. “Ah vou pro Marketing. Não quero mais essa vida de agência.”. Foram pro Marketing e demoraram alguns meses pra dizer “É a mesma coisa. Trabalha muito do mesmo jeito. Ganha pouco do mesmo jeito. Mas meu vale-refeição é maior.”

Nossa, Italo, quanta frustração, tu não é feliz na Publicidade? 

Eu sou muito feliz. Eu amo publicidade e respiro propaganda 24 horas por dia. Gosto do que faço, e, modéstia a parte, faço bem. É tipo mulher de malandro, sabe?! Apanha, apanha, mas tá lá, todo dia, morta de apaixonada.

Falando em mulher de malandro, uma vez eu tava no Aloha, bêbado, conversando sobre relacionamento com uma amiga, e ela me disse algo que eu jamais vou esquecer: “Italo, tu que gosta de sofrer. Cara, tu gosta de ser atendimento. E tu ainda torce pro Fortaleza.”.

Falando em Fortaleza, depois de anos como torcedor, virei atendimento da conta. Olha como são as coisas da vida.

A verdade é que eu fui uma dessas pessoas que aos 17 sabia o que queria fazer a vida toda. Aos 12, pra ser mais preciso. Mas de lá pra cá, já pensei em ser muita coisa. Já pensei em fazer Medicina, pra transar no hospital que nem o pessoal de Grey’s Anatomy. Já quis fazer Direito, pra ser foda que o Harvey Specter de Suits (se você ainda não assistiu essa série, assista, pois provavelmente é a única coisa boa que você vai levar desse texto). E já pensei até em ser representante farmacêutico. Este último só pela grana mesmo.

Aos 25, 26 anos, tem muita gente feliz, tem muita gente frustrada, tem muita gente ainda cercada de dúvidas. Porque a nossa cultura exige que a gente tome uma decisão importante demais, quando ainda não sabemos nem fritar um ovo inteiro sem fazer mexido. E essa de que a gente aprende com os erros é filosofia barata de mesa de bar. Até aprende, mas aprende com os acertos também. Se você acertou e não for doente, não tem porque fazer diferente e errar, no máximo aperfeiçoar aquilo pra fazer mais fácil e mais rápido das próximas vezes.

Portanto, não se orgulhe se seu filho se formar aos 21. Ele pode se formar aos 25 ou aos 30 e ser tão foda quanto.

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Ítalo Castro é atendimento na Delantero.