O dia mais longo do ano.

By April 14, 2017Uncategorized

Na minha infância, a Sexta-feira da Paixão era, disparado, o dia mais longo do ano. Custava uma eternidade e mais um título do Ferroviário pra terminar. É que lá em casa não se podia fazer praticamente nada nesse feriado. Era (e continua sendo) um dia pelo qual se devia ter muito respeito. Lembro que uma vez eu jogava bola e partia cara a cara com o gol (na verdade, um par de Opankas bem espaçadas uma à outra), já estava pronto pra marcar e correr para o abraço, quando meu pai aparece e diz: “Meu filho, hoje não é um dia pra se divertir, é um dia pra se guardar… Foi quando Jesus morreu”.

Então tá, morreu, né? Coisa séria. Morte. Meu pai tem razão. Lá ia o centroavante pro chuveiro mais cedo. No caso, para a antiga sala da televisão, ver algum desenho animado ou qualquer coisa com menos movimento e empolgação pra poder guardar o dia, como me havia sido recomendado. Em sinal de profundo respeito, evito colocar os pés na cadeira e deixo o volume quase inaudível. Depois de cinco minutos, meu pai aparece novamente com o mesmo texto na ponta da língua: “Meu filho, papai já falou, hoje é um dia pra se guardar”. “Mas nem TV, pai?”, “Nem TV”, respondeu.

Aí pensei: “Ah, é? Pois agora eu quero ver”. Espalhei todos os livros, cadernos e apostilas sobre a mesa da sala e desatei a estudar. Duvido que um pai vá reclamar ao ver o filho mergulhado nos estudos em pleno feriado, imaginei. E, se era pra ficar olhando para o teto, resolver alguns TDs não parecia má ideia. Pronto, lá vem ele, bora ver. Errei, e errei feio na previsão. “Meu filho, quantas vezes?! Hoje é um dia muito importante, eu já disse. Não é um dia pra estudar, é um dia para se guardar”.

Mais de vinte e cinco anos depois, estou em casa, também em plena Sexta-feira da Paixão. Ainda sem saber direito o que é pecado ou não, me espalho no sofá, desfrutando de alguns minutos bem ao estilo Homer Simpson, após uma semana que passou como se fosse uma forrageira. Mas não deu nem tempo de se espreguiçar: a Paula irrompe a sala e o silêncio: “Amor, você podia aproveitar o feriado pra montar e fixar as prateleiras no quarto dos meninos, depois fazer umas compras no supermercado e dar uma passadinha na farmácia”. Nem pensei duas vezes: “Meu amor, hoje é um dia pra se guardar…”

 

Pádua Sampaio

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